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Histórias que mudam ao longo dos anos

SEGUNDA-FEIRA, 9 de abril de 2007 Revista IN!
Moradores não esquecem dos passeios de bonde, dos campos de futebol, muito menos das grandes indústrias que existiam, mas garantem que apesar de todo o crescimento e desenvolvimento, a lembrança ainda permance viva, como há 50 anos ou mais

A história não existe só registrada em livros, mas também na memória daqueles que, ao longo dos anos foram os responsáveis pela construção dos nossos bairros e porque não da nossa cidade. Relatadas com precisão, como se tivesse acabado de acontecer, com datas, nomes e números de ruas, estas pessoas revelam que séculos de histórias não podem ser apagados com suntuosas construções de prédios ou com a falta de estrutura básica como educação, saúde, transporte e, principalmente segurança. Detalhes, fatos pitorescos, segredos, momentos únicos e visitas importantes são lembranças que permanecem para sempre na vida dos nossos pais, avôs e bisavôs. São eles que nos contam como eram as ruas, os meios de transporte, as brincadeiras que hoje já não existem mais, os cinemas, a paquera nas ruas, o trabalho, as indústrias... Em cada bairro, transformações gigantescas - arquitetônicas, populacionais, financeiras e culturais - ocorreram durante os séculos. Entrada de imigrantes europeus, fortíssima colonização italiana. Cinemas tradicionais como o Cine Moderno, na Mooca deram lugar a agências bancárias. Pouco sobrou do início do século, o que permanece são os laços de amizade, cada vez mais raros nos dias de hoje. O progresso trouxe uma nova dinâmica para a vida nas grandes cidades. As indústrias que antes eram a riqueza de alguns bairros já não existem mais ou estão aos poucos se mudando; o comércio nas ruas, anteriormente forte e unido, hoje sofre com a concorrência dos shopping centers; mas há de se encarar estes fatos como naturais de uma cidade mutável como São Paulo. E os nossos bairros? Crescem a cada dia, dando aos seus moradores novas expectativas de vida, buscando novos rumos.

A ufania de ser quatrocentão

Em tupi-guarani, “Moo” quer dizer fazer e “oca” significa casa. Fazer casa: talvez essa tenha sido a primeira vocação desse bairro tão antigo e peculiar de São Paulo. A Mooca, uma verdadeira ilha próxima do centro, guarda ainda suas casas operárias, os terrenos estreitos, as fachadas tradicionais e as lembranças da promissora indústria, hoje terrenos abandonados ou ocupados por prédios modernos. Se não fosse o estudo do pesquisador da Associação Esportiva e Cultural Pepe Legal, Eugênio Luciano Junior, que apoiado por entidades do bairro, provou ter a Mooca sua primeira origem em 1556, quando os jesuítas construíram uma ponte sobre o Tamanduateí, se acreditaria ter ela apenas 118 anos. Assim foi possível resgatar 311 anos de história deste, que é um dos bairros que mais paixão desperta em seus moradores. Por volta de 1605, a região era o Arraial de Nicolau Barreto. Posteriormente, foi tomada por chácaras e residências. Durante os anos da Grande Imigração (1870-90) foi que o bairro ganhou outros rumos com a chegada dos imigrantes, principalmente os italianos. Com eles, vieram os trilhos da Estrada de Ferro Inglesa, e um ramal estendeu-se até a Mooca. Nessa época outro fator ajudou o desenvolvimento do bairro, a criação do Clube Paulista de Corrida de Cavalos, pelo fazendeiro Rafael Aguiar Paes de Barros, que transformou a região num centro de lazer - a semente do atual Jockey Club. As corridas foram tão importantes para o desenvolvimento da Mooca, que em 1877 foi criada uma Linha de Bonde Centro-Mooca, de tração animal, logo substituída por uma linha férrea. A partir daí vieram as fábricas e o progresso se instalou definitivamente. Com 445 anos não faltam histórias para os seus moradores contarem.

Uma paixão chamada Mooca

“Eu sou da Mooca”. Não é de hoje que ouvimos esta frase, dita não só pelos moradores mais antigos, mas também pelos jovens. Esta paixão manifestada pela grande maioria pode ter um significado histórico ou ser apenas uma questão de sincronismo entre ambos, bairro e moradores. Para Raphael Cardamone, mais conhecido como Raluca, 71 anos de Mooca, a simpatia do mooquense é única: “Aqui o povo se cumprimenta, se dá a mão e se abraça. É completamente diferente do que se vê em outros lugares. Esse é o motivo pelo qual a pessoa que morou aqui, quando vai a outro bairro custa a se adaptar e geralmente volta. Mas, acredito que isto está na raiz histórica do bairro, pois os primeiros habitantes foram os índios guaiana, cuja palavra significa aparentado, ou seja, já existia esta familiaridade. O moo-queense é “chato” porque é orgulhoso”, vibra. Vindas de Ribeirão Preto, quando crianças, as irmãs Angela, 70 anos, e Mafalda Giuliano, 60, não trocam o bairro por lugar algum: “Acho a Mooca tão boa, não troco de bairro. Aqui a gente tem tudo pertinho. A Mooca é simpática”, diz Angela. “É maravilhosa, nós a amamos”, completa Mafalda.

Diversão garantida

Na Mooca a garotada jogava pião, as meninas pulavam corda e jogavam amarelinha: “Se praticava futebol até com bola de meia na rua, coisa que hoje não acontece, até pela movimentação de carros. Infelizmente a cidade cresceu verticalmente e a criança fica fechada na frente de uma caixinha “emburrecedora”, critica Raluca, se referindo a TV. Os grandes bailes realizados na rua Javari onde está atualmente localizado o Estádio ou os bailinhos que aconteciam na casa das famílias foram marcantes. Mas o footing ainda é lembrado com detalhes por todos: “Acontecia todo sábado e domingo. As moças andavam no meio da rua, e os rapazes ficavam na calçada olhando-as passar”, diz Raluca. “O footing era espetacular. Os homens parados encostados nas paredes e as moças passeando. Tinha aquele flerte, olhares românticos”, afirma o proprietário da Ótica América, Domingos Licastro, 68 anos. Felicio de Souza, 63, confessa: “Do footing sairam muitos casamentos. Era muito gostoso, nos divertíamos muito.

Terra vermelha dá lugar ao asfalto

Quem trafega pela magnífica Av. Paes de Barros é incapaz de imaginar que ela era só barro. Vejam os depoimentos:

“Não tinha casas, não tinha nada. Era uma via de paralelepípedos de duas mãos e ao lado terra vermelha”, diz Mafalda.

“No alto da Mooca viviam os húngaros e lituanos e lá ninguém podia ir porque eles matavam. A Av. Paes de Barros era morro dos dois lados e tinha uma única via estreita, uma subia e a outra descia”, contam os irmãos Callas, Jorge, Adel e Armando.

Não dá para esquecer!!!

Para Adolfo Barricelli, 85 anos, morador da rua Madre de Deus, desde 1922, o fato mais marcante foi a revolução de 24: “Nós sofremos, pois praticamente só atingiu a Mooca e o Cam-buci. No quintal de meu pai caiam bombas de canhão. Foi um desastre. Fugimos para a casa de parentes na Consolação e lá não acontecia nada. Saqueram algumas indústrias como a Minetti e Gamba, onde atualmente funciona a casa de eventos Moinho Santo Antonio”, recorda.

Pepe Legal

Para Raluca, que participou da Escuderia, a emoção das gincanas, ficava também por conta do papel social que ela desem-penhava: “A Escuderia Pepe Legal foi além da diversão, passamos a ajudar as pessoas carentes. A Mooca assim como a Escudeira ficaram conhecidas no mundo inteiro quando numa excursão pela Europa, integrantes do grupo Jordan’s foram até a casa de um dos integrantes dos Beatles e ficaram duas horas conversando com ele, dando o tom do samba, contando sobre a Escuderia e a Mooca”.

Construindo o bairro...

Tipicamente industrial, devemos considerar que foram as indústrias nele implantadas, que obrigaram seus funcionários a se fixarem nas imediações. Foi ao redor do Cotonifício Rodolfo Crespi que o bairro se desenvolveu. Localizada em um quarteirão, entre as ruas Javari e Taquari, a fábrica de fios, tecidos e roupas foi fundada em 1909. O conjunto de galpões em estilo inglês, hoje para alugar, abrigou uma das mais sólidas indústrias da época. O bairro operário foi aos poucos se desfazendo, as indústrias pioneiras como a Cia. de Calçados Clark, a São Paulo Alpargatas, Grandes Moinhos Gamba, Biscoitos Duchen, Biscoitos Rauchi, Destilaria Belardi, entre outras desapareceram. Outras ainda permaOutras ainda perma-necem, mesmo com suas atividades reduzidas, como Cia. União Refinadores, a Cia. Antartica e o Di Cunto. O pequeno comércio, como por exemplo os armazéns, sempre existiram, mas com o enfraquecimento das grandes indústrias novas empresas começaram a montar seus negócios no bairro. A Rua do Mooca, por exemplo, concentra grande parte do comércio da região, mesmo estando enfraquecido, de acordo com os comerciantes mais antigos, ainda tem em si um ponto forte.

O comércio como parte integrante da história

A Mooca foi e é até hoje um bairro de famílias tradicionais. Muitos dos que deram início ao progresso já se foram, mas os que permanecem se sentem orgulhosos de poder compartilhar algumas histórias tristes, como as Revoluções de 24 e 32, e outras alegres, como os bailinhos, os cinemas e os jogos de futebol. Nadima e Tufi Callas chegaram na Mooca em 1922, tiveram 12 filhos, todos em casa. Nos números 2240 e 2250 da rua da Mooca, a família mantinha o Callas Magazine, loja de enxovais e roupas masculinas e femininas e a Casa Moderna que comercializava tecidos finos: “São inesquecíveis os momentos que passamos, os amigos, as famílias tradicionais, mais de 40 anos estabelecidos no mesmo local, e depois com a Construtora Preditec S.A, que ergueu muitos dos prédios aqui da Mooca. Foi uma época muito boa”, contam os irmãos Jorge, 68 anos, Adel, 80 e Armando Callas, 78. Grande parte das casas cons-truídas na Mooca teve como responsável a Serraria Amélia, que pertenceu a família Licastro e permaneceu estabelecida 68 anos na rua da Mooca, e que segundo Domingos Licastro era maravilhosa: “A rua era de paralelepípedo e mais estreita, passava bonde e do lado direito era arborizada. Era bonita, hoje é horrível”, revela. Proprietário da Ótica América, no bairro há mais de 50 anos, Licastro conta como as pessoas compravam os materiais na Serraria de seu avô: “Vendíamos portas, janelas, cal, cimento. Os clientes tanto da Mooca como da Vila Prudente e Vila Alpina, vinham comprar madeira para fazer suas casinhas, não tinha duplicata nem cheques, era tudo anotado na caderneta. Pagavam um pouquinho por mês”. Felicio de Souza, que foi para a Mooca com nove anos e aos 11 começou a trabalhar no Foto América (que está estabelecido na rua da Mooca há 65 anos), aos 21 já era o proprietário. Segundo ele, a rua da Mooca não mudou muito: “Seu visual é o mesmo a praticamente 50 anos, tiraram apenas os paralelepípedos e colocaram o asfalto, em lugar dos bondes vieram os ônibus. As casas são praticamente as mesmas”. Quanto ao comércio da região reclama: “O movimento caiu muito, não houve a evolução necessária dentro da credibilidade e do potencial da Mooca. Hoje, o comércio deveria ser muito mais dinâmico e as lojas mais modernas. Quando sugerimos algo não há a adesão de todos”.

Cinemas divertiam os moradores

Eram muitos os cinemas. Os mais conhecidos: o Moderno, na rua da Mooca, onde hoje está o Banco Bradesco e o Aliança, na rua.Madre de Deus, onde funciona uma auto mecânica. “Antes de ser o Moderno era um Teatro. Quando ganhava um ou dois tostões ia no cinema e, ‘as vezes até comprava balas”, conta Licastro.

Festejos marcam os 445 anos da Mooca

Durante o dia 18 de agosto os moradores da Mooca e bairros vizinhos participaram de um evento popular que privilegiou o talento e a cultura local. Contadores de histórias, atividades circenses, teatro de bonecos, oficinas infantis, ginástica para a 3ª Idade, foram algumas das atrações, sem contar com os pratos variados servidos na praça de alimentação e com os meios de comunicação locais, como a Revista IN, que ao longo da festa conquistou mais 500 novas assinaturas gratuitas.

Crédito da matéria: Revista IN Site: www.revistain.com.br
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